O que significa "Afasta de mim esse cálice"?


“E adiantando-se um pouco, prostrou-se com o rosto em terra e orou, dizendo: Meu Pai, se é possível, passa de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres” (Mt 26:39)

 Uma notável discussão surge com relação ao verdadeiro significado do “cálice” citado por Jesus em Mt 26:39-42; Mc 14:36 e Lc 22:42.
 Essa discussão envolve: 1. A afirmação de que este cálice seria o medo de Cristo frente ao martírio que viria a acontecer; 2. A afirmação de que este cálice seria o medo de Cristo frente ao desconhecido que estaria por vir; 3. A afirmação de que este cálice seria o horror e a angústia que Cristo sentia diante do fato de saber que estaria sendo levado frente ao julgamento Divino.
 Com isso estabelece-se a discussão, e por isso se faz necessário analisar cada uma das afirmações citadas na busca pela compreensão do real significado do texto bíblico.

1. Medo frente ao martírio que viria a acontecer.

 Será que Cristo tinha medo de morrer?
 Ora, por diversas vezes Cristo enfrentou os fariseus, mesmo sabendo das suas intenções e práticas.
 Primeiro, Ele entrou na sinagoga e disse: “Hoje se cumpriu esta escritura aos vossos ouvidos” (Lc 4:21). Com isso, Jesus entrou no ambiente dos judeus e lhes disse face a face que era o Messias, ao que a Bíblia disse que “Todos os que estavam na sinagoga, ao ouvirem estas coisas, ficaram cheios de ira. E, levantando-se, expulsaram-no da cidade e o levaram até o despenhadeiro do monte em que a sua cidade estava edificada, para dali o precipitarem” (Lc 4:28-29), porém, Ele “passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho” (Lc 4:30). Bem, se Jesus tivesse medo de morrer não teria agido de tal forma.
 Segundo, Jesus é avisado que Herodes quer matá-lo, quando alguns fariseus se aproximam tentando intimidá-lo, pois o texto bíblico diz que “Naquela mesma hora chegaram alguns fariseus que lhe disseram: Sai, e retira-te daqui, porque Herodes quer matar-te” (Lc 13:31). Todavia, Jesus lhes responde: “Ide e dizei a essa raposa: Eis que vou expulsando demônios e fazendo curas, hoje e amanhã, e no terceiro dia serei consumado” (Lc 13:32). Aqui, encontramos Jesus demonstrando publicamente que não tinha medo da morte, porque apesar do fato de ser avisado que Herodes queria matá-lo, Ele responde que não fugiria, mas que ainda estaria ali por mais dois dias. E mais, chama Herodes, publicamente, de raposa, em que a Enciclopédia De Bíblia, Teologia e Filosofia afirma o seguinte:

“Os tiranos e outros homens ímpios são assemelhados a raposas, por causa de seus desígnios maldosos, que executam astutamente contra seus semelhantes (Luc. 13:32; onde Herodes é especificamente mencionado).
Russell Norman Champlin. Enciclopédia De Bíblia, Teologia e Filosofia. Ed. Hagnos, Vol. 5. Pág. 553.

 Terceiro, Jesus entra no próprio Templo e afirma: “Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, EU SOU” (Jo 8:58). Ora, Jesus utiliza para si mesmo o nome sagrado de Deus. E mais, fazendo-o na frente dos fariseus e dentro do templo. A Bíblia relata que os fariseus “pegaram em pedras para lhe atirarem; mas Jesus ocultou-se, e saiu do templo”. Bem, Jesus sabia que essa firmação poderia lhe custar a vida, e mesmo assim enfrentou os fariseus sozinho. Com isso, podemos entender que se Jesus tivesse medo de morrer não teria agido de tal forma.
 Quarto, Jesus enfrenta sozinho várias pessoas por estarem fazendo comércio na porta do Templo, profanando o lugar sagrado e transformando a casa de Deus em covil de ladrões (Mt 21:12), trazendo além de tudo, mais ira e ameaça da morte da parte dos fariseus (Mc 11:18). Ora, se Jesus tivesse medo de morrer não teria enfrentado vários homens sozinho, e mais, batendo neles e destruindo os seus “bancos de feira”.

 Por fim, é improvável que a oração de Jesus para que o Pai afastasse Dele o “cálice” estivesse se referindo ao Seu provável medo da morte ou martírio, já que fica claro que Jesus não tinha medo de morrer. Afinal, foi para isso que Ele nasceu:

“É necessário que o Filho do homem padeça muitas coisas, que seja rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e escribas, que seja morto, e que ao terceiro dia ressuscite” (Lc 9:22)

2. Medo frente ao desconhecido que estaria por vir.

 Os defensores desse ponto de vista afirmam que ao encarnar, Jesus, teria perdido ou aberto mão dos atributos divinos, e por isso teria perdido a onisciência. Portanto, estaria com medo do que viria a acontecer.
 Quando observamos o texto bíblico de Filipenses 2:7, podemos constatar que ao “esvaziar-se”, Cristo não abriu mão de Seus atributos divinos, mas de Sua glória temporariamente, fazendo-se em forma de servo. O texto bíblico afirma que Jesus “esvaziou-se a si mesmo” e nesse esvaziamento o mesmo texto explica que isto significava que Ele tomou a “forma de servo, tornando-se semelhante aos homens”. Nesse processo, Jesus “humilhou-se a si mesmo” porque o próprio Deus Filho se fez em forma de homem, e com isso foi “obediente até a morte, e morte de cruz”.
 Com tudo isso, o texto bíblico de Colossenses 1:19 nos afirma, acerca de Jesus Cristo, que foi do agrado de Deus que “nele habitasse toda a plenitude”. Ora, o que significa plenitude e que plenitude é essa?
 Bem, plenitude é o estado de pleno, ou seja, é algo que está cheio, repleto, completo, inteiro, perfeito e absoluto.
 Entretanto, Jesus estava pleno, cheio, repleto, completo, inteiro, perfeito e absoluto de quê?
 O texto bíblico de Colossenses 2:9 nos diz que Jesus era, e é, pleno, cheio, repleto, completo, inteiro, perfeito e absoluto dos atributos de Deus, pois nos diz que “nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade”. Ou seja, em Jesus existe tudo aquilo que em Deus existe. E mais, o texto deixa claro que isso ocorre até em sua carne, pois nos afirma que “nele habita corporalmente”.
 Diante de tudo isso podemos entender que Jesus não tinha medo do desconhecido que estaria por vir, pois possuindo toda a plenitude da divindade, Ele possuía o atributo da onisciência, como podemos observar em vários textos bíblicos.
 Em Marcos 14:30, encontramos Jesus declarando que já sabia que Pedro iria negar-lhe três vezes. Isso demonstra a onisciência de Cristo.
 Em Marcos 14:42, encontramos Jesus declarando que sabia que o traidor, Judas Iscariotes se aproximava. E mais, no texto de Jo 6:64 já está declarado que Jesus sabia quem não cria e quem iria traí-lo, desde o princípio. Isso demonstra a onisciência de Cristo.
 Em Marcos 2:8, encontramos Jesus declarando que sabia o que os fariseus pensavam no seu interior, ao que o texto bíblico declara que “Jesus logo percebeu em seu espírito que eles assim arrazoavam dentro de si, e perguntou-lhes: Por que arrazoais desse modo em vossos corações?”. Isso demonstra a onisciência de Cristo.
 Em Mateus 9:4, encontramos Jesus revelando os pensamentos íntimos dos fariseus que pensavam que Ele estava blasfemando, e publicamente Jesus lhes revela os pensamentos. Isso demonstra a onisciência de Cristo.
 Em Mateus 12:25, Jesus revela, outra vez, os pensamentos dos fariseus que acusavam Jesus de estar expulsando satanás pelo poder do maligno. Isso demonstra a onisciência de Cristo.
 Em Lucas 6:8, Jesus, conhecendo os pensamentos íntimos dos fariseus lhes questiona se é licito curar no sábado e cura um home na sua frente. Isso demonstra a onisciência de Cristo.
 Em Lucas 7:38-39, Jesus revela os pensamentos do fariseu que reprovara a atitude da mulher que lavara Seus pés, trazendo-lhe um questionamento acerca do assunto. Isso demonstra a onisciência de Cristo.
 Em Jo 1:48, Jesus revela ter visto Natanael embaixo da figueira, ao que Natanael creu. Isso demonstra a onisciência de Cristo.
 Bem, por várias vezes podemos demonstrar biblicamente a onisciência e outros atributos divinos de Cristo. Portanto, é inconsistente a afirmação de que Jesus estaria com medo do “desconhecido” que viria pela frente. Mesmo porque o próprio Jesus já sabia o que iria acontecer, e foi para isso mesmo que Ele nasceu.
 Jesus era Divinamente consciente do que Iris acontecer, e para Ele não existe desconhecido.
 Os próprios discípulos reconheceram o onisciência de Jesus ao afirmarem:

“Agora conhecemos que sabes todas as coisas, e não necessitas de que alguém te interrogue. Por isso cremos que saíste de Deus” (Jo 16:30)

 Jesus não só sabia o que iria acontecer. Ele sabia com todas as infinitas riquezas de detalhes. E mais, ele mesmo afirmou que isso era necessário:

“É necessário que o Filho do homem padeça muitas coisas, que seja rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e escribas, que seja morto, e que ao terceiro dia ressuscite” (Lc 9:22)

3.Angústia diante do fato de saber que estaria sendo levado ao julgamento Divino.

 De acordo com o Theological Dictionary of The New Testament encontramos o seguinte:

“O cálice não é apenas um fato cruel mas o julgamento divino, de forma que Jesus não agoniza com medo da morte mas pelo horror do Santo ser levado debaixo do julgamento de Deus pelo pecado humano (Mc 14:33; Mt 26:37; Lc 22:44).”
BROMILEY, Geofrey W. Theological Dictionary of The New Testament. Eerdmans, pág. 844,845

 Ao fazer a seguinte afirmação “se é possível, passa de mim este cálice”, Jesus estava se referindo ao julgamento de Deus. O julgamento que iria impossibilitar temporariamente a comunhão entre Eles (Pai, Filho e Espírito Santo). Por isso Jesus afirma na cruz do calvário: “Eloí, Eloí, lamá, sabactani? que, traduzido, é: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mc 15:34). Ao fazer tal afirmação por duas vezes, Deus meu, Deus meu, Jesus estava falando com o Pai e com o Espírito Santo.
 Era a esse cálice que Jesus se referia, o julgamento de um Deus justo que não pode sentir prazer no pecado. Pois a comunhão foi, temporariamente, interrompida. Interrompida até que Jesus fizesse a paz entre Deus e os homens ao apresentar-se no Santo dos Santos no tabernáculo celestial (Hb 7):

Hebreus 9:21-28
“Semelhantemente aspergiu com sangue também o tabernáculo e todos os vasos do serviço sagrado. E quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue; e sem derramamento de sangue não há remissão. Era necessário, portanto, que as figuras das coisas que estão no céu fossem purificadas com tais sacrifícios, mas as próprias coisas celestiais com sacrifícios melhores do que estes. Pois Cristo não entrou num santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, mas no próprio céu, para agora comparecer por nós perante a face de Deus; nem também para se oferecer muitas vezes, como o sumo sacerdote de ano em ano entra no santo lugar com sangue alheio; doutra forma, necessário lhe fora padecer muitas vezes desde a fundação do mundo; mas agora, na consumação dos séculos, uma vez por todas se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo. E, como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo depois o juízo, assim também Cristo, oferecendo-se uma só vez para levar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o esperam para salvação”

“Disse, pois, Jesus a Pedro: Mete a tua espada na bainha; não hei de beber o cálice que o Pai me deu?” (Jo 18:11)

 Esse cálice, a que Jesus se refere em Jo 18:11 já estava determinado pelo Pai, desde antes da fundação do mundo:

“E adora-la-ão todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo”. (Ap 13:8)

Cálice, na maioria dos textos bíblicos é uma expressão que se refere ao julgamento de Deus. Vejamos:

“Então lhes disse: O meu cálice certamente haveis de beber; mas o sentar-se à minha direita e à minha esquerda, não me pertence concedê-lo; mas isso é para aqueles para quem está preparado por meu Pai”. (Mt 20:23)

Haveremos de experimentar o julgamento de Deus, pois o texto de 1 Co 3:12-15 nos diz que será realizado um julgamento no futuro, no qual as más obras (madeira, feno e palha) serão queimadas e as boas obras (ouro, prata e pedras preciosas) permanecerão. Todavia, o mesmo texto afirma que neste julgamento as boas obras permanecerão, sendo revertidas em galardões. E mais, nesse julgamento não haverá condenados, pois o texto é claro ao afirmar que “se a obra de alguém se queimar, sofrerá ele prejuízo; mas o tal será salvo todavia como que pelo fogo”.
Nesse julgamento ninguém será condenado, porque NESSE julgamento só estarão presentes aqueles que já são salvos, diferentemente do outro julgamento, no qual estarão presentes aqueles que são condenados (Ap 20:13). Nesse outro julgamento, nós estaremos com Cristo julgando com Ele (1 Co 6:3). Por isso o texto de Mt 20:23 nos diz que haveremos de beber do cálice, e que sentaremos a direita ou a esquerda de Deus, de acordo com o que o PAI preparou.
 Vários outros textos que mencionam os cálices são, em boa parte, referidos a julgamento, a exemplo dos seguintes textos: Mc 10:38; Ap 14:10; Ap 16:19; Ap 17:4; Ap 18:6. Nos demais textos bíblicos que citam os cálices, ou cálice, quando não se referem a cálice no sentido de julgamento, estão se referindo a cálices literais, ou seja, copos ou taças.

 Portanto, ao afirmar “meu Pai, se é possível, passa de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres”, Jesus não está se referindo ao medo da morte, ou do sofrimento, porque provou por diversas vezes não ter medo nem de um nem do outro. Ao afirmar “meu Pai, se é possível, passa de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres”, Jesus não está com medo do desconhecido futuro, porque Ele mesmo demonstrou ser onisciente por diversas vezes.
 Ao afirmar “Meu Pai, se é possível, passa de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres”, Jesus demonstra a importância que dava a comunhão com o Pai e com o Espírito Santo, e ao mesmo tempo a Sua submissão e amor para conosco, ao ponto de se entregar e abrir mão de coisas importantíssimas para que pudéssemos estar com Ele por toda a eternidade. Jesus sentiu “agonia” por saber do julgamento divino que aconteceria, impedindo temporariamente a comunhão entre Eles (Pai, Filho e Espírito Santo).
 Era a esse cálice que Jesus se referia, o julgamento de Deus pelo pecado que, temporariamente, impediria a comunhão com Jesus Cristo.
Autor: Robson T. Fernandes

3 comentários:

  1. Amo demais este blog de vcs. Parabéns!
    Estamos divulgando vcs no verdadexpressa.blogspot.com

    Se puder divulgue-nos tb!

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  2. muito sabia essa colocação DEUS os abençoe

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