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"Não Julgueis, para que não Sejais Julgados"

"Não julgueis, para que não sejais julgados" (Mateus 7:1-2). 
A palavra grega krinete, aqui traduzida como "julgar", pode conter, tanto no grego como no português, uma extensa escala de significados, desde discernimento até condenação. O contexto aponta claramente para este último sentido. Nem o exercício de uma judiciosa discriminação (exigida claramente por 7:6,15-20), nem a existência de tribunais de justiça estão sendo proibidos. É um espírito condenatório sem misericórdia que Jesus rejeita. Isto é corroborado pelo material paralelo em Lucas, onde a advertência contra o julgar os outros é precedida pela positiva "Sede misericordiosos, como também misericordioso é vosso Pai" (6:36). Nesta admoestação, Jesus volta ao tema do amor fraternal, que atingiu o clímax em Mateus 5:43-48. No relato de Lucas do Sermão, os dois trechos são imediatamente juntados (6:27-38). O ponto de nosso Senhor é que pessoas tão necessitadas de misericórdia não têm nenhum direito para ser tão sem misericórdia com os outros. Esta advertência é apenas a face oposta de sua promessa anterior, que aqueles que mostram misericórdia receberão misericórdia (Mateus 5:7) e aqueles que perdoam serão perdoados (Mateus 6:12). Aqueles que condenam outros sem compaixão ou intento redentor podem esperar o mesmo tratamento nas mãos de Deus, uma expectativa que causa calafrio.
"Porquê vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio?" (Mateus 7:3-5). 
Porque o tipo de julgamento em discussão é sem amor e egoísta, ele é freqüentemente acompanhado de hipocrisia. Por esta razão, Jesus pinta o quadro patético e humorístico de um homem tentando extrair um grão de areia do olho de outro, enquanto uma trave está saliente no seu. Espiritualmente falando, há uma grande quantidade destes cegos oculistas que estão muito preocupados em ver as faltas dos outros e estão esquecidos da enormidade das próprias. Afortunadamente, uma séria atenção com nossos próprios erros tem o efeito de nos equipar com humildade suficiente para tratar paciente e habilmente com os pecados alheios (Gálatas 6:1-3; Tito 3:2-3).
A maior dificuldade prática que se prende a este familiar conjunto de versículos é a idéia popular de que ele quase proibe toda forma de reprovação, seja qual for o motivo. O largo contexto do Novo Testamento torna impossível este entendimento. O ensinamento de Jesus contém muita repreensão (por exemplo, Mateus 23 e o texto presente), entretanto, nunca áspera ou severa. Como o próprio Senhor observou, "Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele" (João 3:17). E esta é a chave. Não é a reprovação amorosa e que resgata que o Senhor rejeita aqui, mas os ataques sem amor que servem somente para alimentar o ego do "juiz."
O evangelho da graça não pode ser pregado sem convencer os homens do pecado (João 16:8) e chamá-los a mudar o coração (Lucas 24:47; Atos 2:38; 3:19; 17:30). Mesmo as almas do povo redimido de Deus não podem ser protegidas sem se admoestar os insubmissos (1 Tessalonicenses 5:14) e procurar converter "o pecador do seu caminho errado" (Tiago 5:19-20). Mas tal correção é oferecida com amor que redime, não como o veículo do orgulho e da ira. A justiça do reino adverte, mas não ataca. Os cidadãos do reino de Deus, lutando com seus pecados e assediados por fraquezas, necessitam de um irmão e não de um "juiz". Em todos os nossos tratos com outros, precisamos lembrar que não somos agentes do julgamento do Senhor, mas de sua salvação. A vingança pertence ao Senhor. Nossa tarefa é buscar e salvar o perdido.

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